Cultura
Precisamos de Sérgio Porto de volta
Na atual conjuntura, seria bom ressuscitar Stanislaw Ponte Preta
Quem chegou alterado aqui em casa hoje foi o Adamastor. Gigante de formação clássica, contemporâneo de Camões, aquele caolho, e observador astuto de tudo que ocorre em sua agora segunda pátria, interrompeu meu desjejum para dizer que não aguentava mais de saudade do Stanislaw Ponte Preta. E acrescentou que se o Sérgio Porto, por ter sido irreverente, jamais ressuscitaria para uma segunda jornada por este Brasil varonil, cor de anil, com seu Febeapa, que se inventasse um substituto. Concordei que, de fato, sua ressurreição era improvável.
Mas, enfim, depois de longo silêncio que aproveitei para terminar meu café, quis saber suas razões, por que julgava necessário criar outro Stanislaw Ponte Preta, Adamastor, o perspicaz, perguntou-me se não vejo os noticiários.
Respondi que estou inventando umas pessoas e suas dramáticas situações, época em que evito me envolver com o que ocorre a meu redor. O Festival está recomeçando, ele me avisou, um sorriso sardônico no rosto secular.
Como assim? Só agora, sim, tomei o último gole do café. Um ministro, ele baixou a voz para que eu prestasse mais atenção, um ministro apareceu na televisão numa entrevista e disse que é melhor uma UPA funcionando do que uma UPA parada. E estrondou um riso que fez minha casa estremecer. Quis duvidar, mas ante a maneira convicta com que ele me assegurou a veracidade do fato, comecei também a rir.
E é um ministro, ele dizia cada vez que parava de rir para respirar.
Agora só falta algum político aparecer na televisão para nos informar com um discurso fluente e influente que as crianças de hoje serão os adultos de amanhã.
Uma pena que as pessoas com trinta anos ou menos não tenham conhecido as colunas do Sérgio Porto, carioca bem-humorado, mas sobretudo cáustico em suas crônicas, não perdoando ninguém que escorregasse na casca da banana.
Quanto ao indigitado ministro flagrado pelo Adamastor em delito tautológico, com toda certeza não terá desconfiado de seu malfadado cometimento, convencido de que havia proferido uma sentença verdadeira.
E é claro que não temos como duvidar de sua veracidade. Mas pior do que não suspeitar da besteira é não ter entre seu estafe pelo menos um, unzinho que seja, para chamá-lo depois à parte e, segurando a lapela de seu paletó, cochichar, olha chefe, e explicar o que significa tautologia.
Claro que esse funcionário não existe porque puxa-saco só existe é para elogiar. Parentes e puxa-sacos não têm o direito de criticar, tampouco estão ali para explicar. Eles puxam os aplausos e mais que isso não conseguem fazer.
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