Entrevistas
Isabela Kalil: Desembarque do Centrão muda o lugar dos Bolsonaro na direita
Para a antropóloga, a decisão do Centrão de não embarcar na candidatura de Flávio expõe o fracasso da aposta de que seria possível conter a família Bolsonaro
A direita brasileira imaginou que poderia se aproveitar da força eleitoral do bolsonarismo sem se submeter a ele. Dez anos depois da ascensão de Jair Bolsonaro, a aposta se revelou um erro, avalia a antropóloga Isabela Kalil, uma das principais pesquisadoras da extrema-direita no País.
Em entrevista a CartaCapital, ela afirma que a família Bolsonaro hegemonizou esse campo político enquanto seus antigos aliados abriam mão de contê-la — e vê no afastamento do Centrão da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) um sinal de que essa relação começa, enfim, a mudar.
Para Kalil, a eleição de 2026 abre assim nova inflexão na direita brasileira. Pela primeira vez, a família Bolsonaro disputa a Presidência enfraquecida pela prisão e inelegibilidade de Jair e sem conseguir reunir ao redor de Flávio boa parte das forças conservadoras que, nos últimos anos, toleraram ou aderiram ao seu projeto.
Esse afastamento se soma a outras contradições do bolsonarismo. Para vencer, Flávio precisa avançar entre as mulheres, eleitorado no qual Lula (PT) mantém vantagem expressiva, embora sua base ideológica permaneça profundamente machista.
Leia os destaques:
CartaCapital: O Centrão não embarcou na candidatura de Flávio, que segue competitivo. Como chega a extrema-direita a esta eleição, com Jair preso?
Isabela Kalil: A primeira coisa em relação a esse cenário é o lugar da família Bolsonaro no campo da direita como um todo. Até esse não apoio do chamado Centrão sinaliza uma coisa diferente do que tínhamos até então, porque mesmo com todos os desdobramentos da tentativa de golpe e da própria prisão de Bolsonaro, não tínhamos visto um afastamento explícito do campo da direita de maneira mais ampla.
A família Bolsonaro, de certa maneira, tem conseguido hegemonizar o campo da direita como um todo. Vejo até como mais importante esse não apoio do Centrão do que as próprias outras candidaturas na direita.
Então, no fim das contas, isso abre um capítulo diferente: o lugar que a família Bolsonaro costumava ter no campo da direita se enfraquece com esse não apoio.
CC: Mesmo após a derrota de Jair em 2022, a “direita democrática” não se fortaleceu, ao menos no plano nacional…
IK: Sempre trabalhei com a perspectiva de que a responsabilidade de fazer a contenção da extrema-direita na sua atuação institucional é também da direita. Passamos por um processo em que a direita democrática teve uma inflexão para a extrema-direita. Quando isso acontece, esse campo, de certa forma, abre mão de ocupar um lugar histórico importante, um lugar de contenção da própria extrema-direita.
É uma inflexão que, infelizmente, vai acontecer até com a negação do resultado eleitoral. No fim das contas, a direita tem essa responsabilidade. Ao contrário do cálculo que foi feito, quando essa direita passa a não fazer frente de fato ao bolsonarismo e, de uma maneira oportunista, tenta se aproveitar da própria onda do bolsonarismo imaginando que seria uma coisa controlável ou um fenômeno muito isolado, o que acaba acontecendo é que se perde posição política.
Ao contrário do que se imaginava dez anos atrás, a ideia de que seria possível controlar a família Bolsonaro acaba por não se realizar.
A própria tentativa de passar a anistia — seja o que chamaram de “anistia light”, seja a dosimetria — é algo muito sintomático do lugar que o campo da direita passa a ocupar nesse processo. Do ponto de vista histórico, se temos uma tentativa de golpe de Estado, qualquer força democrática deveria passar a ser muito enfática para que isso não se repetisse e para condenar esses atos. E o que vimos é o campo da direita, uma boa parte dele, flexibilizando esse processo.
CC: Desde 2022, o bolsonarismo busca ampliar seu apoio no eleitorado feminino — vide o exemplo do PL Mulher. Como avalia esse movimento?
IK: Tivemos o impeachment de Dilma Rousseff em boa parte envolvido em dinâmicas de gênero. E passamos a ter, inclusive no próprio campo da esquerda, uma espécie de receio de apoiar publicamente mulheres e de enfrentar essas questões, como se fosse algo que fragilizasse a própria esquerda, principalmente considerando o trauma do impeachment. E o que aconteceu é que, paradoxalmente, a própria direita passou a avançar nesses temas e apoiar mulheres que, muitas vezes, apoiam uma agenda antigênero.
O lugar das mulheres no campo da direita e da extrema-direita é muito instável e muito ambíguo — vimos isso com a própria Michelle Bolsonaro. A extrema-direita precisa do voto feminino, mas ao mesmo tempo sua base ideológica é machista. Ou seja, as mulheres ganham destaque quando são necessárias para o projeto, mas podem ser facilmente descartadas ou sofrer ataques quando passam a não performar de acordo com com aqueles projetos específicos.
Não estou dizendo ser o mesmo lugar que as mulheres ocupam no campo da esquerda, ainda que dificuldades em relação à atuação institucional ocorram com mulheres em qualquer campo político.
No campo da direita, aproveita-se de uma agenda de proteção de mulheres, de crianças e da família, e isso é um desafio. Por exemplo: o combate à violência doméstica ou à violência de gênero é uma agenda também encampada pela extrema-direita. É a extrema-direita falando em agendas que têm a ver com com coisas muito parecidas com as do campo da esquerda.
A resolução do problema e o enfrentamento daquelas questões se dão de maneiras diferentes, mas é difícil para o eleitor ou para a eleitora comum conseguir diferenciar essas agendas, porque parece que que essas mulheres conservadoras estão falando a mesma coisa que outras mulheres no campo da política. E não estão.
CC: Vemos agora uma campanha muito marcada por dúvidas sobre deepfakes. Como projetar o que nos aguarda neste ano em comparação com o que vivemos em 2022?
IK: Temos uma diferença fundamental em relação ao uso de inteligência artificial, e isso não tem a ver só com com deepfake.
Vemos, no caso desta eleição especificamente, o uso da inteligência artificial e do deepfake não para difamar adversários, mas para recompor a presença de Jair Bolsonaro em um momento em que essa presença está interditada.
Bolsonaro, do ponto de vista legal, impossibilitado de falar em público e de usar as redes sociais, e a campanha recompõe a sua presença como se ele não estivesse preso. Então, é um fenômeno complexo e que vai muito além do paradigma do deepfake — de enganar o eleitor — ou do paradigma da difamação.
Temos desafios muito sérios, das mais variadas ordens. Um deles é a recomposição do Bolsonaro, outro é a composição de eleitores que não existem. São esses avatares como o da Dona Maria, que ficou famoso. De uma certa maneira, simulam o eleitor comum, muitas vezes o eleitor indeciso, a partir da construção de um eleitor que não existe.
Neste caso, sim, é para enganar as pessoas, porque ele se passa por um eleitor real. A inteligência artificial, a partir de diferentes maneiras, tem uma série de mudanças de recomposição do debate público e daquilo que consideramos paradigmas comuns da democracia.
Essa questão da inteligência artificial está muito além do uso da propaganda em si, do deepfake, e é algo que a campanha de Flávio Bolsonaro tem utilizado para recompor a presença de Jair — quando não poderia fazer isso.
CC: A extrema-direita brasileira é subserviente aos EUA, enquanto em outros países tem uma fantasia mais nacionalista, como vimos no exemplo dos tarifaços?
IK: Temos chamado isso de ‘patriotismo subalterno’, um tipo de patriotismo que se coloca de maneira subserviente principalmente em relação aos EUA. É um tipo que eu nem chamaria de nacionalismo, mas, no caso do Brasil, de um tipo de ‘patriotismo’ que se coloca quando, por exemplo, Eduardo Bolsonaro presta continência para uma autoridade nos EUA.
Esse imaginário de patriotismo que herda noções a partir dos EUA é ambíguo: é um tipo de nacionalismo, é um apelo à Pátria, mas é uma subalternidade e uma fantasia de que em uma situação de conflito, haveria uma proteção dos EUA, de que Trump ofereceria algum tipo de proteção em relação aos interesses do Brasil, o que também não é verdade.
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