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Eleição impõe questões existenciais aos franceses

Confronto entre Macron e Le Pen pela presidência testa limites entre patriotismo e nacionalismo e abre dilema também sobre o que significa ser francês

Eleição impõe questões existenciais aos franceses
Eleição impõe questões existenciais aos franceses
Ex-banqueiro Emmanuel Macron e a populista de direita Marine Le Pen enfrentam-se na disputa final pela presidência da França
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Por Erin Conroy

Os eleitores franceses começaram a ponderar suas escolhas eleitorais com o anúncio do resultado oficial do primeiro turno presidencial, na segunda-feira 24, que colocou o ex-banqueiro Emmanuel Macron contra a populista de direita Marine Le Pen na disputa final.

Poucos analistas acreditam que a Frente Nacional de Le Pen vencerá em 7 de maio. Enquanto isso, o establishment político se une por trás de Macron, político independente de centro que diz querer tornar a França mais amigável para os negócios.

Virtualmente, todos os outros nove candidatos endossaram Macron depois de admitir a derrota. E muitos eleitores de todo o espectro político afirmam que vão apoiar seu recém-formado movimento Em Marcha! – alguns relutantemente – para evitar uma saída da União Europeia, como prometida por Le Pen, ou para esmagar o que muitos veem como um partido semeando a xenofobia.

“Não há dúvida, as pessoas devem fazer qualquer concessão e votar no melhor para a França e para o futuro do país”, diz Stéphanie Pottier, uma vendedora parisiense, ao avaliar os resultados. “Econômica e culturalmente, o melhor candidato é obviamente Macron, mesmo que ele não seja a primeira escolha do eleitor.”

Enquanto os apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, candidato de extrema esquerda apoiado pelos comunistas, e do socialista Benoît Hamon questionam o passado de Macron como investidor financeiro e suas promessas de reformas trabalhista, a maioria deles deverá votar no líder do Em Marcha.

“Eu não acho que Macron será capaz de convencer a maioria dos franceses de que a globalização é algo bom, porque a maioria acha que não é”, diz Thomas Guénolé, analista político no renomado instituto Sciences Po. “No entanto, ele deverá ser eleito, provavelmente, devido ao nojo que tantos eleitores sentem diante de Le Pen e da extrema direita. Eles farão isso por preferir o que chamam de um candidato das finanças a uma candidata do racismo. Principalmente os apoiadores de Mélenchon não suportam o racismo.”

A pergunta na cabeça de muitos eleitores é se o jovem partido de Macron conseguirá assegurar uma maioria parlamentar funcional para poder governar o país. Dentro de um mês, apenas duas semanas após o segundo turno, o país volta às urnas para eleições legislativas.

“Seu movimento político foi criado somente no ano passado e não sabemos até onde ele vai ganhar as eleições legislativas em junho. Provavelmente, o partido de Macron não deve conseguir maioria”, avalia Thomas Vitiello, analista do centro de pesquisa política Cevipof, em Paris. “Há ainda muitas incógnitas mas, até agora, o resultado tem sido suficiente para acalmar os mercados financeiros.

Para restaurar a credibilidade junto a mercados e eleitores, Macron terá de mostrar que vai implementar reformas econômicas estruturais, de forma que a Alemanha e a França se tornem parceiros iguais na Europa, explica Thomas Vitiello.

O que significa ser francês?

O confronto entre Macron e Le Pen expõe questões existenciais não somente sobre o lugar da França na Europa, mas também sobre o que significa ser francês.

Enquanto Macron defende a imigração e vê a globalização e o multiculturalismo como um bem, a retórica protecionista de Le Pen – “Primeiro a França” – tem visado aos estrangeiros e à população muçulmana do país.

Ela afirma que gostaria de ver uma proibição de símbolos religiosos em público como véus e solidéus e, caso seja eleita, pretende suspender toda a imigração legal. “Finalmente, o grande debate vai acontecer”, declarou Le Pen pelo Twitter, na noite de domingo. “Os cidadãos franceses precisam aproveitar esta oportunidade histórica.”

Sarrah Abdelrahman, uma franco-marroquina que se mudou recentemente para Paris, diz temer uma presidência de Le Pen. “Sendo alguém que se veste de determinada forma, claro que temo por mim e por minha família”, revela. “Mas eu também não sei o que isso significaria para a França. Como um isolamento do resto do mundo pode ser bom para a economia e para a cultura francesas?”

Preparado para o cargo?

Enquanto analistas não esperam uma vitória da Frente Nacional, o especialista Guénolé, do instituto Sciences Po, adverte que Macron não deve estar excessivamente confiante da vitória.

“Em vez de se comportar com serenidade durante o seu discurso, ele decidiu celebrar anunciando sua vitória na França, dando a impressão de que já venceu”, ressalta Guénolé. “Isso é um enorme erro e mostra falta de compostura. Este não é o comportamento de um estadista, mas de uma criança mimada.”

Para alguns eleitores, nenhum dos candidatos azarões está qualificado para governar o país. “Macron é tão jovem, ele nunca concorreu para um cargo antes, sabemos muito pouco sobre ele”, afirma Laure Danchin, que apoiou Mélenchon e pensa em votar em branco para mostrar o seu descontentamento com os candidatos. “Ele não vai ser diferente dos outros, talvez seja ainda pior devido a seus lobbies financeiros. Eu não tenho estômago para votar nele.”

 

 

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