Política

Resistência

A insatisfação contra a reforma da Previdência toma as ruas do País

por Redação* — publicado 15/03/2017 22h33, última modificação 15/03/2017 23h15
Dezenas de milhares de brasileiros participaram do "Dia Nacional de Paralisação", promovido por centrais sindicais e movimentos sociais
Ricardo Stuckert
Avenida Paulista

Em São Paulo, a Avenida Paulista ficou completamente tomada por manifestantes

Dezenas de milhares de cidadãos participaram dos atos contra a reforma da Previdência do “Dia Nacional de Paralisação”, convocado por centrais sindicais e movimentos sociais. Em São Paulo, palco do maior protesto, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) estimou em 150 mil o número de manifestantes que tomaram a Avenida Paulista e parte da Consolação. Ao menos outras 22 capitais brasileiras registraram atos nesta quarta 15.

Recebido na Avenida Paulista aos gritos de “guerreiro do povo brasileiro”, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu no carro de som e fez um ácido discurso contra o governo Temer: "Está ficando cada vez mais claro que o golpe dado nesse país não foi apenas contra a Dilma, contra os partidos de esquerda, foi para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas da classe trabalhadora ao longo de anos, com a reforma trabalhista e da Previdência".

"Somente quando a gente tiver um presidente legítimo a gente vai conseguir fazer esse país voltar a crescer, gerar emprego e recuperar a confiança", emendou Lula. "Um dia nesse país nós resolvemos o problema da previdência incluindo os pobres no orçamento. Quando a gente conseguiu incluir o pobre no orçamento da União, o pobre passou a ser a solução ao invés do problema. Quando geramos 22 milhões de emprego, todas as categorias tinham aumento acima da inflação”.

Até a noite de ontem, o ex-presidente não havia confirmado presença no ato. De acordo com Luiz Dulci, ex-secretário geral da Presidência e dirigente do Instituto Lula, o líder petista estava reticente em discursar num ato promovido por centrais sindicais, mas resolveu comparecer após saber da presença de lideranças de outros partidos.

"Hoje é um dia histórico, hoje o Brasil parou", celebrou Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Vagner Freitas, presidente da CUT, enfatizou que este foi apenas o primeiro grande ato contra a reforma da Previdência. "O próximo será maior", prometeu. Segundo o líder sindical, se o governo não retirar o projeto, Temer enfrentará "a maior greve geral que o Brasil já viu".

A manifestação transcorreu sem problemas até o início da dispersão. Por volta das 20 horas, algumas pessoas montaram uma barricada de fogo na rua Comenale, entre o Masp e o acesso à avenida 9 de Julho, noticiou o jornal Folha de S.Paulo. Nesse momento, a Polícia Militar passou a reprimir os manifestantes com balas de borracha e gás de pimenta.

Lula
'Somente quando a gente tiver um presidente legítimo o País voltará a crescer', disse Lula (R. Stuckert)

Capital paulista parada
O dia começou tumultuado em São Paulo. Na noite da terça-feira 14, os metroviários decidiram, em assembleia, paralisar suas atividades por 24 horas, mesmo após o Tribunal Regional do Trabalho determinar a manutenção de um efetivo de 100% durante os horário de pico e de 70% no restante do dia, sob pena de multa diária de 100 mil reais. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) havia se antecipado à decisão da categoria e entrou na Justiça contra uma eventual paralisação.

Os motoristas e cobradores de ônibus também participaram do “Dia Nacional de Paralisação”, e permaneceram nas garagens até às 8 horas da manhã. A paralisação dos ônibus também afetou as linhas da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU), que operam nas regiões de Guarulhos, Alto Tietê, ABC e na Baixada Santista. Na região do ABC, 70 mil passageiros foram prejudicados pela paralisação dos trabalhadores de oito empresas permissionárias que operam 47 linhas com uma frota de cerca de 330 ônibus metropolitanos.

Com o metrô funcionando parcialmente nas linhas 1-Azul, 2-Verde e 3-Amarela durante todo o dia, além da paralisação completa dos serviços do monotrilho (linha 15-Prata), São Paulo registrou o maior trânsito desde o início do ano. Às 9h30, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrava 201 quilômetros de congestionamento no centro expandido, muito acima da média para o horário, entre 53 e 89 quilômetros.

Reunidos na Praça da República, professores da rede estadual entraram em greve nesta quarta-feira 15. Os docentes da rede municipal decidiram o mesmo, durante uma assembleia realizada no Viaduto do Chá. 

Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro, PMs entraram em confronto com manifestantes (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Rio de Janeiro e Belo Horizonte
Na capital fluminense, a paralisação dos motoristas de ônibus não se concretizou e a frota circulou normalmente. As escolas municipais, estaduais e particulares, por sua vez, ficaram sem aulas por um dia. No maior ato do Rio, manifestantes se concentraram na Igreja da Candelária e, às 17h30, iniciaram caminhada até a Central do Brasil, pela Avenida Presidente Vargas, que teve todas as 16 faixas interditadas.  No início da noite, quando o protesto já dispersava, policiais militares dispararam bombas de efeito moral e balas de borracha contra mascarados, que derrubaram latas e lixo e depredaram vidraças.

Belo Horizonte amanheceu com escolas e estações de metrô fechadas. Pela manhã, petroleiros protestaram em frente à Refinaria Gabriel Passos. Outro ato contra a reforma da Previdência começou na Praça da Estação, ocupou a Praça Sete e chegou à Assembleia Legislativa por volta do meio dia. Ao menos 10 mil manifestantes participaram do ato, segundo os organizadores. A PM não divulgou estimativas.

O Nordeste não foge à luta
Em Salvador, ocorreram dois grandes atos. Pela manhã, cerca de 10 mil manifestantes ocuparam as pistas da Avenida ACM, uma das mais movimentadas da capital baiana, por volta das 7h30 da manhã. O trânsito só foi liberado cerca de quatro horas depois. À tarde, um novo protesto percorreu o trecho entre as praças Campo Grande e Castro Alves. Cerca de 50 mil manifestantes participaram da marcha vespertina, segundo a organização. A Polícia Militar não divulgou estimativa de público.

Salvador
As ruas de Salvador também ficaram tomadas por cidadãos contrários à reforma da Previdência (CUT)

Em Fortaleza, cerca de 30 mil manifestantes marcharam pelas ruas do centro. No Recife, o metrô interrompeu a operação às 9h, e só voltou a funcionar no horário de pico, das 16h às 20h.Parte das escolas municipais estão fechadas. Professores  da rede estadual decretaram greve em assembleia feita na Praça Oswaldo Cruz, no Recife. O ato reuniu cerca de 40 mil pessoas, segundo os organizadores. Assim como o ocorrido na capital cearense, a Polícia Militar não divulgou números.

As primeiras reações aos protestos
No mesmo dia em que as principais capitas tiveram protestos e paralisações de diversas categorias contra a reforma da Previdência, Michel Temer insistiu na tese de que o governo aponta um caminho para "salvar a Previdência Social do colapso". “A sociedade brasileira, pouco a pouco, vai entendendo que é preciso dar apoio a este caminho para colocar o país nos trilhos", emendou, alheio ao recado das ruas.

Já o líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, afirmou que o governo "precipitadamente já inviabilizou a reforma da Previdência", ao propor regime de urgência para o projeto de lei que limita o direito de greve dos servidores públicos. "O Brasil todo está nas ruas. Votarmos exatamente hoje a urgência para essa matéria é um preço que não podemos pagar".

* Com informações da Agência Brasil.